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No mundo laboral, o que atrai (e afasta) a geração Z?

Usa inteligência artificial mais do que qualquer outra geração, valoriza o propósito no trabalho e pensa a longo prazo antes de mudar de emprego. A permanência média de pouco mais de um ano nos primeiros cinco anos de carreira pode sugerir desinteresse. Mas será mesmo assim? 

Dois inquéritos globais realizados em 2025 explicam quem é esta geração, o que quer e o que a afasta. Falamos do Gen Z Workplace Blueprint da Randstad, baseado em 11.250 respostas de colaboradores de quinze mercados de trabalho, e o  Gen Z and Millennial Survey da Deloitte, com 23.482 respostas de inquiridos de 44 países.  

Menos portas de entrada

Desde o início de 2024, as ofertas de emprego para quem está a iniciar a carreira caíram 29 pontos percentuais, segundo a análise de mais de 126 milhões de ofertas realizada pela Randstad. A tecnologia foi o setor mais afetado, seguida do setor de transportes e logística e do setor financeiro. Segundo o inquérito, menos de metade desta geração tem, atualmente,  um emprego a tempo inteiro, e cerca de um em cada três inquiridos que trabalham nesta modalidade prefeririam um trabalho que lhe permitisse acumular uma atividade paralela. Quase metade dos Gen Z afirmaram não se sentir financeiramente seguros em 2025, quando em 2024 esse valor era cerca de um em cada três.  

Uma geração móvel, não desleal

A taxa de abandono voluntário do emprego na geração Z é de 22%, quase o dobro da registada nos Millennials. A permanência média na geração Z é de pouco mais de um ano, quando nos Millennials ronda os dois e nas gerações anteriores chega a quase três. No período da análise, um em cada três Gen Z planeava mudar de emprego nos próximos doze meses, e apenas um em cada dez tencionava permanecer por tempo indefinido na empresa em que estava a trabalhar.

A análise da Randstad mostrou que mais de quatro em cada dez Gen Z considera sempre os seus objetivos a longo prazo ao tomar decisões de carreira, mais do que em qualquer outra geração. A principal razão para saírem de onde estão é a remuneração, o que pode ser explicado pela já mencionada pressão financeira crescente. A segunda razão para procurarem outro emprego é a falta de progressão. O inquérito da Deloitte apurou que 44% desta geração já abandonou um emprego por sentir que não tinha um propósito,  e mais de quatro em cada dez recusou uma oferta por existir um desalinhamento de valores com o empregador. 

IA: usada, mas temida pela geração Z

Três em cada quatro Gen Z recorrem a IA para desenvolver novas competências, face a pouco mais de metade nas gerações anteriores. Cerca de 50% dos inquiridos da Geração Z usa a IA também para resolver problemas no trabalho e quando procuram  emprego. O inquérito da Deloitte refere que 29% dos Gen Z usava IA generativa com regularidade, um valor que cresceu em relação a 2024, e três em cada quatro acreditava que a tecnologia iria mudar a forma como trabalhava no próximo ano. 

A familiaridade com a tecnologia coexiste com preocupações concretas sobre o seu impacto. Quase metade mostrava-se preocupada com o impacto da IA no emprego, mais do que no ano anterior, e mais de seis em cada dez utilizadores de IA generativa admitiram procurar funções que a tecnologia dificilmente substitui. 

Dinheiro, propósito e bem-estar

O 14.º Gen Z and Millennial Survey chegou a um diagnóstico simples: a remuneração, o propósito e o bem-estar são indissociáveis para estas gerações. Mais de metade dos Gen Z e dos Millennials vive de salário em salário, e o custo de vida mantém-se, pelo quarto ano consecutivo, como a principal preocupação referida nos inquéritos da Deloitte. Sem estabilidade financeira, o sentido de propósito deteriora-se e, como consequência, também o bem-estar piora. 

O propósito no trabalho é valorizado por quase toda a geração Z, mas o seu significado varia: alguns associam-no ao impacto na sociedade, outros à aprendizagem, ao equilíbrio ou à autonomia. O bem-estar parece ser o aspeto mais frágil: quatro em cada dez Gen Z referiu sentir stress ou ansiedade com frequência, acima dos Millennials, e pouco mais de metade classificou o seu bem-estar mental como bom ou muito bom. Os principais fatores identificados como tendo origem laboral são as horas excessivas de trabalho e a falta de reconhecimento.  

O que quer a geração Z

A progressão é a prioridade central: é a segunda razão de saída em todas as gerações, logo após a remuneração, e foi já a razão pela qual 44% dos Gen Z inquiridos abandonaram um emprego. Essa progressão implica chefias que não se limitam à supervisão de tarefas, mas que ensinam, dão orientação e inspiram.   

No entanto, apesar da vontade de progredir, apenas 6% indicou ter como objetivo principal chegar a uma posição de liderança.
Entre as formas como os empregadores podem apoiar o desenvolvimento dos colaboradores, a geração Z elege a criação de programas internos de aprendizagem com tempo dedicado.  

Remuneração, propósito, ética e reconhecimento

A segurança financeira, o propósito e o bem-estar não são prioridades separadas para esta geração. O inquérito da Deloitte mostra que se reforçam mutuamente: quem se sente financeiramente seguro tem mais probabilidade de sentir o trabalho como significativo. O desalinhamento de valores também pesa: mais de quatro em cada dez Gen Z já recusou uma oferta de trabalho por razões éticas. E seis em cada dez admitiria aceitar um emprego com valores desalinhados se a remuneração fosse boa, o que aponta para a pressão financeira como fator determinante na decisão. 

A motivação da geração Z é a mais baixa em relação às gerações anteriores: 64% dos inquiridos sentem-se totalmente envolvidos no trabalho, enquanto nos Baby Boomers a percentagem sobe para 79%. A ausência de crescimento, de reconhecimento e de significado aparece nos dois estudos como a combinação que mais pesa na decisão de sair. 

Em 2030, a geração Z e os Millennials representarão 74% da força de trabalho global, segundo uma projeção da Forrester citada na análise da Deloitte. Por outro lado, o poder de compra da geração Z deverá passar de 2,7 biliões de dólares (cerca de 2,3 biliões de euros) em 2024 para 12,6 biliões de dólares (cerca de 10,8 biliões de euros) em 2030, segundo o Bank of America Institute. A geração Z é, ao mesmo tempo, o talento que as empresas precisam de atrair e o consumidor que precisam de servir. As empresas que a souberem conquistar estarão mais bem posicionadas para triunfar.