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Sustentabilidade: discurso e prática

A sustentabilidade tornou-se palavra de ordem no mundo corporativo. Praticamente todas as grandes empresas definiram metas para 2030, publicam relatórios ESG e reafirmam o seu compromisso com a saúde e longevidade do planeta. Mas, entre o discurso e a prática pode, por vezes, existir alguma distância. Será que estamos perante uma mudança estrutural ou apenas retórica? Num contexto marcado por guerras, tensões comerciais e pressão sobre a competitividade europeia, a sustentabilidade continua a ser uma prioridade estratégica ou corre o risco de ficar para segundo plano?

A sustentabilidade como imperativo estratégico

O Pacto Ecológico Europeu estabeleceu objetivos ambiciosos: reduzir as emissões de gases com efeito de estufa em pelo menos 55% até 2030), 90% até 2040, e alcançar a neutralidade climática em 2050.
As metas do Pacto vieram redefinir as regras de competitividade nos mercados europeus ao alterar os critérios que determinavam a viabilidade (e o sucesso) das empresas. Através do Sistema de Comércio de Emissões (CELE) e do Mecanismo de Ajustamento Carbónico nas Fronteiras (CBAM), a pegada de carbono tornou-se um custo real. Noutras palavras: empresas que descarbonizarem mais rapidamente obtêm vantagens de custo, enquanto as que adiarem esta transição podem enfrentar penalizações financeiras.

Impacto da sustentabilidade na performance financeira

Um estudo da MSCI de 2025 concluiu que as empresas com pontuações ESG mais elevadas tendem a superar financeiramente as restantes. Mas, a partir de 2022, o contexto mudou: a invasão da Ucrânia impulsionou as energias fósseis, as taxas de juro elevadas penalizaram os setores de energia limpa e o clima político nos EUA afastou muitos investidores. Na Europa, a tendência foi inversa, com o fluxo de capital a manter-se positivo ao longo do mesmo período, segundo a Morningstar.

Práticas de sustentabilidade ou sustentabilidade burocrática?

A crescente complexidade dos requisitos de relato de sustentabilidade tem gerado uma camada excessiva de burocracia que, paradoxalmente, dificulta a implementação efetiva de práticas ESG nas empresas. Em vez de promover ações ambientais e sociais concretas, os processos administrativos morosos consomem tempo e recursos valiosos, sobrecarregando as empresas, especialmente as pequenas e médias, com obrigações de reporting que desviam o foco de iniciativas com impacto tangível.
A burocracia é também um travão aos investimentos em negócios sustentáveis e que trazem competitividade à Europa. Existe vontade de investir, mas a desburocratização dos processos é essencial para que isso aconteça.

De acordo com uma análise de custos e benefícios divulgada em 2022 pelo EFRAG, (organismo consultivo da Comissão Europeia), os custos administrativos recorrentes do reporte de sustentabilidade para as grandes empresas da UE ascendem a cerca de 1,9 mil milhões de euros anuais, a que acrescem entre 2,6 e 3,9 mil milhões de euros em custos de auditoria externa.

Simplificar processos

Em dezembro de 2025, o Parlamento Europeu aprovou o acordo do pacote Omnibus I. A adoção formal pelo Conselho da UE ocorreu em fevereiro de 2026, com a Diretiva (UE) 2026/470 a entrar em vigor em março. Esta diretiva simplifica as regras de relato de sustentabilidade (CSRD) e de dever de diligência (CSDDD), reduzindo significativamente o âmbito de aplicação e os encargos de comunicação, e limitando o “efeito cascata” sobre as empresas de menor dimensão. A CSRD passa agora a aplicar-se apenas a empresas com mais de 1.000 trabalhadores e volume de negócios superior a 450 milhões de euros.

Aprovadas pela Comissão Europeia em julho de 2026, as novas regras de relato de sustentabilidade (ESRS) ainda não v vigor: aplicam-se às contas de 2027 e, assim que entrarem em vigor, as empresas poderão antecipá-las já às contas de 2026. A eliminação de mais de 60% dos indicadores obrigatórios deverá reduzir em mais de 30% o custo do relato por empresa.

Mais transformação

A sustentabilidade corporativa deve refletir-se na forma de operar, estar presente nas decisões de investimento, nos processos produtivos, nas cadeias de abastecimento, na cultura organizacional. Ao mesmo tempo, é fundamental que o enquadramento regulamentar europeu continue a evoluir no sentido de existir uma menor burocratização, permitindo que as empresas canalizem os seus recursos para a transformação efetiva em vez de os consumirem em processos administrativos de conformidade.

O(s) exemplo(s) do Grupo Semapa

No universo empresarial português, o Grupo Semapa ilustra como a sustentabilidade é integrada transversalmente num portfólio diversificado. A The Navigator Company foi reconhecida pela agência Sustainalytics como a empresa mais sustentável do setor florestal a nível mundial, obtendo igualmente a classificação máxima “A” do CDP no combate às alterações climáticas. Com 78% da energia proveniente de fontes renováveis e o desenvolvimento do gKRAFT (embalagens de fibra natural para substituir plástico), a Navigator demonstra que excelência operacional e responsabilidade ambiental podem caminhar lado a lado.

A mesma abordagem estende-se ao resto do portfólio. A Triangle’s tem um papel relevante na descarbonização da mobilidade como a primeira fábrica mundial a produzir quadros de bicicletas elétricas de forma robotizada. No campo da energia, a UTIS desenvolve tecnologia própria de eficiência energética e produção de hidrogénio e a ETSA promove a economia circular ao transformar subprodutos animais em ingredientes para alimentação animal e biocombustíveis. Já a Gropyus, que integra o portfólio Semapa Next desde 2024, tem como negócio a construção sustentável em madeira.

Em comum? Uma visão de sustentabilidade que é tangível e não acessória, e que faz parte da vantagem competitiva destas várias empresas.