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Constellr: da agricultura de precisão à defesa europeia

Como pode o calor da Terra, observado a partir do espaço, ajudar a proteger colheitas, identificar navios e reforçar a segurança europeia? A resposta está na tecnologia da Constellr, uma empresa alemã de inteligência térmica que integra o portfólio da Semapa Next desde 2024.

Fundada em 2020, na Alemanha, a Constellr nasceu com uma missão: contribuir para a segurança alimentar através de uma utilização mais eficiente da água na agricultura. Para isso, desenvolveu tecnologia capaz de medir a temperatura da superfície terrestre a partir do espaço, recorrendo a satélites térmicos. 

O objetivo inicial era ajudar os agricultores a identificar sinais de falta de água nas culturas antes de se tornarem visíveis. Mas o potencial desta tecnologia revelou-se muito mais abrangente. Da monitorização de florestas, cidades e infraestruturas à vigilância marítima e à defesa, a Constellr está a demonstrar como a inteligência térmica pode responder a desafios em setores muito diferentes.

O que os satélites térmicos conseguem revelar

Os satélites convencionais permitem observar a superfície terrestre através de imagens óticas ou de radar. A tecnologia da Constellr acrescenta uma dimensão diferente: a temperatura. Com a obtenção de dados térmicos da temperatura da superfície em tempo real, de dia ou de noite, a Constellr mostra não só onde estão e que aspeto têm objetos e sistemas, mas também como se movem e comportam ao longo do tempo. Segundo a empresa, a inteligência térmica acrescenta uma camada de análise comportamental que complementa o mapeamento estrutural do radar e a classificação visual das imagens óticas. Para uso militar, promete deteção mais precoce, verificação independente e avaliações fiáveis, permitindo seguir o rasto de veículos, navios ou equipamentos que tentam não ser vistos ou perceber que um exército se está a preparar para avançar.

Dez milhões de imagens

A tecnologia tem origem no instituto alemão Fraunhofer e foi validada a bordo da Estação Espacial Internacional em 2022, onde captou mais de dez milhões de imagens, segundo o comunicado de lançamento do primeiro satélite. Já em órbita, a constelação operacional, chamada HiVE, reúne dois satélites: o SkyBee-1 e o SkyBee-2, ambos em foguetões Falcon 9 da SpaceX.  

Segundo a ficha da missão publicada pela Agência Espacial Europeia, os dois satélites descrevem uma órbita heliossíncrona (órbita em que o satélite passa sobre cada ponto da Terra sempre à mesma hora solar local) entre os 510 e os 540 quilómetros de altitude, com resolução nativa de 30 metros. Isto significa que que cada píxel da imagem corresponde a uma área de 30 × 30 metros no chão, tal como o sensor a capta, sem melhorias por software.

Da agricultura de precisão à vigilância marítima

Na agricultura, a leitura térmica capta o stress das culturas antes de ele ser visível. A temperatura da vegetação varia com a transpiração das plantas e essa variação sinaliza falta de água ou doença enquanto o campo ainda parece saudável. Segundo a Constellr, os dados detetam esses sinais até duas semanas antes das ferramentas correntes. É tempo suficiente para os produtores agirem antes de a colheita ser afetada. 

No mar, a leitura serve para detetar embarcações que evitam ser vistas. Muitos navios navegam com o transponder de identificação desligado para não aparecerem nos sistemas de seguimento, ou deslocam-se de noite para escapar às câmaras óticas. São os chamados “dark vessels“, usados em pesca ilegal, contrabando ou operações militares não declaradas, e para quem vigia uma costa passam quase despercebidos aos meios convencionais. 

O calor resolve parte desse problema porque a assinatura térmica do casco revela estas embarcações de dia ou de noite, incluindo as pequenas, que o radar tem mais dificuldade em detetar. Além disso, o rasto quente que deixam na água indica a direção em que seguem.

Um investimento de 37 milhões de euros para acelerar a expansão

Em fevereiro de 2026, a Constellr fechou uma ronda de Série A de 37 milhões de euros, liderada pela Alpine Space Ventures e pela Lakestar, com a participação da Semapa Next e de investidores como a Bayern Kapital, a Cardumen Capital e a Kineo Finance. A empresa descreve-a como uma das maiores Séries A da tecnologia espacial europeia e, com ela, o total angariado desde a fundação subiu para 75 milhões de euros. 

O comunicado refere que o investimento vai servir para adaptar o sistema aos padrões exigidos pela defesa e desenvolver satélites com resolução inferior a cinco metros, destinados a clientes governamentais e militares. 

Como exemplo das capacidades atuais, a Constellr divulgou uma operação de observação da base naval de Rybachiy, na Rússia. De acordo com a empresa, os dados térmicos permitiram seguir as embarcações e até denunciar a presença de submarinos, através do calor acumulado junto aos cais. Os rastos térmicos deixados na água mantiveram-se visíveis durante cerca de uma hora, o suficiente para deduzir a direção e a velocidade dos navios. Esta é informação que o radar e os satélites óticos, sozinhos, não conseguem obter.

Uma tecnologia europeia com ambição global

O ano de 2026 marcou também uma nova fase de expansão comercial e tecnológica da Constellr. 

Em janeiro, os seus dados passaram a estar acessíveis a investigadores do programa Third Party Missions da Agência Espacial Europeia; em fevereiro, a empresa assinou um acordo comercial com a japonesa SKY Perfect JSAT e disponibilizou os dados através da plataforma UP42. 

Em junho de 2026, a Constellr surgiu em dois consórcios concorrentes para reconhecimento a partir do espaço. Num deles, a Airbus Defence and Space assumiu o papel de contratante principal, com a Rohde & Schwarz, a Constellr, a Orbint e a HPS. No outro, a Rheinmetall e a ICEYE incluíram a Constellr entre os parceiros iniciais da sua joint venture. De todas as empresas envolvidas, era a única presente nas duas listas. 

O desenvolvimento da constelação continuou nos meses seguintes. Em agosto, a Constellr contratou a dinamarquesa Space Inventor para duas novas plataformas, com lançamento previsto para 2028; em setembro, anunciou uma cooperação com a Lynred, fabricante francês de detetores de infravermelhos, para a próxima geração de satélites. 

Semapa Next: investir em tecnologia com potencial de transformação

A Semapa Next entrou no capital da Constellr em 2024, reconhecendo o potencial de uma tecnologia com aplicações em vários setores e capacidade de crescimento internacional. 

Desde então, a empresa alemã consolidou a sua presença na indústria espacial europeia, expandiu o acesso aos seus dados e reforçou o desenvolvimento de soluções destinadas à defesa e segurança. 

A evolução da Constellr está alinhada com a estratégia de investimento da Semapa Next: apoiar empresas tecnológicas europeias com modelos de negócio escaláveis, ambição internacional e potencial para liderar os respetivos mercados. 

Da gestão eficiente da água à monitorização de infraestruturas críticas e à segurança europeia, a Constellr mostra como uma mesma inovação pode gerar valor em diferentes áreas. Uma tecnologia que começou por ajudar a proteger as colheitas e que hoje também contribui para observar e compreender os desafios de segurança da Europa. Um exemplo de como investir em inovação pode abrir caminho a novas soluções para problemas globais.