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Investir na Europa em tempos de incerteza: risco ou oportunidade?

A Europa atravessa um momento de transformação. A instabilidade geopolítica, a rutura das cadeias de produção globais e a pressão económica crescente obrigam a que seja feita uma reavaliação profunda do modelo industrial europeu. Neste contexto, a reindustrialização do continente deixou de ser uma ambição de longo prazo para se tornar uma prioridade estratégica.  

Mas, mesmo com esta certeza, surgem dúvidas: poderá esta transformação reforçar a competitividade europeia? E onde residem as oportunidades para quem investe ou quer investir na Europa com visão de futuro? Estas são algumas questões às quais procuramos responder neste artigo. 

Uma nova realidade para a Europa

A guerra na Ucrânia, o conflito no Médio Oriente, as tensões comerciais com os Estados Unidos e a guerra no Irão, iniciada em fevereiro de 2026, tornaram evidente que a estabilidade económica e industrial deixou de poder ser assumida como garantida. 

A esta conjuntura acrescenta-se a incerteza quanto às garantias de segurança transatlânticas e o impacto do bloqueio do estreito de Ormuz. 

Vulnerabilidade estrutural

Segundo Goldman Sachs, entre 2020 e 2024, cerca de 64% das aquisições de defesa dos países europeus da NATO foram efetuadas nos Estados UnidosNum contexto de prioridades norte-americanas mais dispersas e de constrangimentos na sua base industrial, reforçar a capacidade produtiva europeia tornou-se prioridade estratégica, refletida nas iniciativas lançadas por Bruxelas para aumentar a prontidão industrial e militar do continente. Esta dependência não se limita à defesa. Estende-se a matérias-primas críticas, energia, semicondutores e tecnologias estratégicas. 

Defesa como prioridade estratégica europeia

A resposta europeia já está em marcha, com o investimento em defesa a ser assumido como investimento estratégico, com impacto direto na base industrial europeia. 

O plano ReArm Europe/European Readiness 2030 prevê mobilizar até 800 mil milhões de euros para reforçar a prontidão militar e a base produtiva europeia. 

Por sua vez, na Cimeira da NATO de 2025, os aliados comprometeram-se a investir 5% do PIB em defesa até 2035, sinalizando uma mudança de longo prazo.  

O rearmamento europeu abriu também uma nova frente de oportunidade para as grandes famílias industriais. Pela primeira vez em décadas, a defesa deixou de ser um setor excluído para se tornar uma prioridade estratégica na Europa e o capital privado está a acompanhar o processo. Por exemplo: a família alemã Porsche-Piëch criou um fundo dedicado a startups de defesa, os Wallenberg, da Suécia, reforçaram a sua posição na Saab, fabricante de sistemas de defesa, radares e submarinos e a família Dassault, francesa e proprietária da Dassault Aviation, tem aumentado a produção, beneficiando da procura pelos seus produtos por parte de vários aliados europeus.  

Reindustrialização da Europa

Se a instabilidade geopolítica promoveu o investimento em defesa, a reindustrialização da Europa responde a uma questão que não é apenas económica. A capacidade industrial passou também a ser um fator de soberania e resiliência. 

Relatório Draghi sobre o futuro da competitividade europeia fez o diagnóstico: a Europa investe pouco, regula demais e perdeu dinamismo industrial face aos Estados Unidos e à China. Com a apresentação do Competitiveness Compass pela Comissão são identificadas três prioridades claras: recuperar o atraso em inovação, descarbonizar a economia e reduzir dependências estratégicas.  

Competitividade com descarbonização no centro

É neste enquadramento que surge o Clean Industrial Deal, pensado como o braço operacional desta nova estratégia industrial, para que a descarbonização se transforme numa vantagem competitiva e não numa fonte adicional de perda de competitividade para a indústria europeia. 

A aposta centra-se na modernização das indústrias intensivas em energia, como aço, cimento e químicos, garantindo que permanecem competitivas num contexto de descarbonização acelerada. Ao mesmo tempo, o Clean Industrial Deal deu um passo concreto em março de 2026 com a apresentação do Industrial Accelerator Act, que introduziu critérios ‘Made in Europe’ e requisitos de baixo carbono nas contratações públicas em setores estratégicos com o objetivo de fortalecer cadeias de valor internas e reduzir as vulnerabilidades externas. 

A reindustrialização da Europa passa, assim, por construir uma nova geração industrial: mais limpa e mais digital. A isso, acrescenta-se a capacidade de ser resiliente, de competir globalmente enquanto reforça a sua autonomia estratégica. 

Holdings industriais como motores de transformação

A transformação industrial da Europa exige capital à mesma escala. De acordo com a Mckinsey, estimativas recentes apontam para a necessidade de cerca de 1,2 biliões de euros por ano em investimento público e privado para reforçar a competitividade europeia. 

Os orçamentos públicos são essenciais para enquadrar a estratégia, mas não suficientes para a executar, pelo que a reindustrialização da Europa dependerá, em larga medida, da capacidade do setor privado para investir e escalar produção em setores estratégicos. 

Há sinais de que esse movimento está em curso: segundo a mesma fonte, os fundos de private equity dedicados à Europa captaram cerca de 300 mil milhões de euros, um valor inédito, equivalente a cerca de um terço dos compromissos globais. Este capital procura oportunidades em infraestruturas, energia, tecnologia industrial e transição climática, precisamente as áreas que estão no centro da nova política industrial europeia. Neste contexto, holdings ligadas à indústria desempenham um papel decisivo: ao alocar capital com visão de longo prazo, reforçam cadeias de valor, promovem modernização tecnológica e aumentam a escala produtiva necessária para competir globalmente. 

Investir na Europa: a posição estratégica da Semapa

O enquadramento apresenta incerteza e também oportunidades, e cabe aos players com experiência na indústria procurar as empresas e os sectores com maior potencial de crescimento, numa era em que a reindustrialização não pode ser novamente adiada. Se a Europa vai precisar de mais indústria, infraestruturas, autonomia energética e capacidade produtiva interna, os grupos industriais terão um papel determinante. 

A Semapa tem vindo a consolidar a sua posição nestas áreas críticas. Os investimentos recentes como a Imedexa, a Gomà-Camps e a Accrol através da Navigator, a aquisição da Barna pela ETSA ou a Gropyus pela Semapa Next refletem uma estratégia consistente para investir na Europa, orientada para a inovação, a sustentabilidade tangível, a eficiência produtiva e a integração em cadeias de valor com crescente relevância.